As dores psicológicas que ignoramos

Escrevi este texto inspirado pelo artigo “A dor psicológica dói” de autoria da escritora portuguesa Laurinda Alves. No artigo, a autora discorre sobre a postura preconceituosa das pessoas diante da doença mental. No texto abaixo, também abordo o mesmo tema, todavia, através de um ângulo diferente.

Obviamente, ninguém gosta de sentir dor. Entretanto, a dor exerce um papel fundamental para preservação do nosso corpo e para manutenção de nossa sobrevivência. Ela nos diz que algo está errado. Assim, para calar nossos receptores nociceptivos, procuramos por ajuda.

Quando o dente dói, você vai ao dentista. Lá acontece uma anestesia e um procedimento curativo. Problema resolvido! Assim como no dente, acontece com as dores no resto do corpo. A diferença é que nas dores do corpo você procura por um médico, o qual lhe recomendará um procedimento para acabar com a dor.

Em nossa sociedade, dores físicas são tratadas de modo urgente. E isto está certo, pois, um dente não tratado cai e um corte negligenciado pode vir a se agravar e comprometer todo o membro. A dor nos mobiliza em direção a uma solução, afinal, ninguém consegue trabalhar, estudar e se divertir com dor. E quando, por falta de recursos ou de informação, ignoramos a dor, acontecem coisas trágicas (o dente cai e a o membro é amputado).

Isso ocorre com a dor física, mas… e a dor psicológica?

Primeiramente, quero destacar que não estou falando apenas daquela dor que você sente no corpo, mas que nenhum exame aponta onde está. Esta dor é chamada de psicossomática. Estou falando aqui de uma dor psicológica muito mais comum, e que na maioria das vezes, também não é sentida no corpo, mas nas nossas relações sociais ou, pelo contrário, quando estamos sozinhos. Quero falar daquela dor originada pelo o que você sente (solidão, saudade, tristeza, medo, raiva…) e pelas coisas que acontecem com você (separação, luto, traição, derrota, demissão, e etc.)

Ao contrário da dor física, na dor psicológica não há receptores nociceptivos para nos incomodar, atrapalhar e informar onde é a dor. E isso faz com a dor psicológica seja ignorada e por este motivo, agravada.

Todas aquelas sensações e todos aqueles acontecimentos que relatei acima, são coisas normais da vida. Entretanto, isso não significa que você deva sofrer quando sentir ou acontecer algo ruim. Ficar sozinho dói, ser esquecido dói, ter raiva dói, ser traído dói, perder alguém que amávamos dói – e como dói! Mas se dói, por que não buscar ajuda? Por que esperar que a dor passe sozinha e se submeter a um sofrimento desnecessariamente longo?

Reconhecendo a dor

Às vezes, as pessoas não buscam ajuda pois têm vergonha de admitir a própria dor, e/ou preconceito por pessoas que admitem a dor que sentem e buscam por auxílio.

Algumas pessoas querem atender a um ideal social equivocado que determina que todo mundo tem que ser forte e produtivo o tempo todo, e que, aqueles que se abalam por coisas menores que uma fratura exposta, são fracos. Então, por vergonha e preconceito, não buscam ajuda. E quando a situação se agrava, vemos um trabalhador perder o emprego, pois não conseguiu calar a dor do luto após a morte do pai. Vemos uma mulher não seguir a vida, pois não deu conta de apagar a dor e a mágoa pela separação e traição do ex-marido. Vemos um estudante largar a faculdade, pois não conseguiu amenizar a saudade de sua cidade e de seus pais. A dor deles informava: “Você precisa falar sobre isso”. Mas, querendo calar o sentimento, conseguiram apenas fazê-lo gritar ainda mais. Até o ponto de não conseguirem ouvir mais nada. Nem mesmo as coisas boas da vida.

Ninguém precisa ser forte, feliz e produtivo o tempo todo. De vez em quando, é preciso falar dessas dores psicológicas que te incomodam. Se sua tristeza fosse um dente cariado, você não iria ao dentista? Se sua ansiedade fosse um corte na perna, você não iria ao médico? Você não teria vergonha. Ninguém criticaria e o problema seria resolvido. O que proponho então, é que você supere sua vergonha e as críticas oriundas do ideal social equivocado, e trate suas emoções e seus comportamentos do mesmo modo como você trata dos seus dentes e do seu corpo.

Algumas sugestões de leitura:

Transtornos Psicológicos

Em livro, psicólogo diz que a dor da rejeição ativa as mesmas áreas da dor física

“Depressão dói”: jornalista fala sobre estigma da depressão masculina

2 comentários sobre “As dores psicológicas que ignoramos

  1. Avatar de Luiz Augusto de França Luiz Augusto de França 24 fev 2016 / 19:47

    Parabéns pelo texto Tâmaro, muito bem escrito, e surpreende pela condução do assunto! continue com estes textos, eles com certeza podem ajudar numa tomada de decisão.

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