Mais um ano (ou período) letivo está se iniciando e você deve estar cheio de expectativas e ansioso(a). Matérias novas, professores novos e, para alguns, a formatura está quase chegando. Entretanto, pergunto: Também está ansioso(a) para estudar? Se a resposta foi “Sim,” você pode ler este texto e confirmar algo que você já faz. Se a resposta foi “Não” ou “Talvez”, você precisa muito ler este texto e aprender a estudar de um modo simples e eficaz.
Este post é uma variação do texto “Volta às aulas: Não mande seu filho estudar para a prova“, no qual passei algumas dicas para os pais auxiliarem o estudo dos filhos. A diferença é que desta vez quero falar com você, estudante. Vou te explicar o erro de estudar para prova, diferenciar o papel do professor e o seu papel de aluno e estudante. Mas antes, para contextualizar, quero que repare nas histórias abaixo:
Na história 1 temos o caso do adolescente que aos 14 anos foi aprovado em medicina na Universidade Federal de Sergipe. Na história 2, temos o jovem que mesmo trabalhando no campo tirando leite de vaca, conseguiu ser aprovado em 3º lugar no curso de medicina da Universidade Federal de Campina Grande. E por fim, na história 3, temos outro jovem que aos 26 anos é Oficial de Justiça e já foi aprovado em 13 concursos públicos. Todos eles afirmam que não são de famílias ricas e que foram bolsistas de colégios particulares ou estudaram em escolas públicas. Mas então, o que esses jovens fizeram para conseguir alcançar esses objetivos? Eles aplicaram em seu dia a dia os princípios de estudar antes da prova, estudar em casa sozinho e fazer exercícios. Juntaram isso a sua motivação e disciplina e conseguiram suas vagas!
O objetivo de te contar essas histórias é esse mesmo que você está pensando: “Se eles conseguiram, você também pode conseguir”. Independentemente se seu objetivo é ou não ser aprovado no vestibular ou no concurso público, as orientações abaixo servem para que você aprenda e não esqueça os conteúdos que estuda. Vamos começar, então?
Obs: Algumas vezes vemos estudantes dizendo em reportagens que estudam(ram) 10 horas por dia. Isso é impossível! O cérebro humano não consegue sustentar a atenção por tanto tempo. Na verdade, tirando os intervalos para arrumar o material de estudo, ir ao banheiro, lanchar e esticar o corpo, eles fizeram no máximo 4 ou 5 horas líquidas de estudo (intercalando matérias e fazendo exercícios).
É importante que você saiba que a qualidade é mais importante do que a quantidade. É melhor estudar pouco, mas todo dia.
O erro de estudar para a prova
Antes da explicação, vamos fazer um exercício:
Hoje é segunda-feira, dia 02. Você está na sala de aula, quando a professora diz: “Pessoal, faremos uma prova na terça-feira, dia 20”. O que você faz?
A) Começa a estudar para a prova 10 dias antes.
B) Chega em casa e já começa a estudar para a prova.
C) Fica de boa! Estuda na noite do dia 19 e/ou pede ao professor do horário anterior “5 minutinhos” para estudar para a prova.
D) N.d.a (Nenhuma das anteriores).
A resposta certa é… letra D) pois estudar para a prova é sempre um erro. Se você estuda para a prova, provavelmente isso já aconteceu com você:

Se isso já aconteceu e você achou que as outras alternativas faziam sentido, não se preocupe! A culpa não é inteiramente sua.
Em nosso país, criou-se uma cultura equivocada de estudar para a prova… da escola, do ENEM, do vestibular, da faculdade, do concurso, e etc. Com isso, é possível que você tenha aprendido que o objetivo de estudar é tirar boas notas; não aprender. E assim, até hoje você tem estudado para tirar boas notas e, provavelmente, deve ter obtido algum êxito nisso. Entretanto, pergunto: Se aplicasse em você agora, a última prova que fez, você conseguiria responder às questões? Daria o “branco”, não é mesmo? E por que isso aconteceria? Resposta: Porque você não aprendeu. Porque a informação estudada não foi adequadamente memorizada. Assim, após algumas horas ou dias depois da prova, tudo o que você estudou simplesmente desapareceu!
Saiba que: Não importa quantos dias se estude antes da prova. Estudar para prova é sempre um erro. Se o objetivo é aprender e não apenas tirar notas, o estudo tem que ser diário!
Corrigindo o erro entendendo os papéis

O papel do professor

Seu professor pode ser gente boa e te passar umas dicas legais, mas não é papel dele te ensinar. O papel dele é esclarecer. Professor é aquele que explica a matéria, instrui procedimentos em sala de aula e tira dúvidas.
Cabe ao professor ser didático na explicação e fornecer exercícios para você fazer. Aliás, toda boa aula deveria ser acompanhada de exercícios para serem feitos em casa. Se seu professor não passa tarefas “para casa”, busque por exercícios na internet.
Parafraseando Confúcio: Se ouço, esqueço; se vejo, lembro; se faço, aprendo.
O seu papel: Aluno e estudante
No dia a dia utilizamos as palavras acima como sinônimos, mas neste texto, faremos uma diferenciação.
Você é aluno quando assiste às aulas e presta atenção à explicação do professor. Assistir às aulas é coletivo e passivo. Este momento é importante para que você elimine suas dúvidas sobre a matéria. Pergunte à vontade! Faça anotações. Para que seu papel durante a aula seja um pouco menos passivo, sugiro que faça uma leitura em casa do texto que será explicado pelo professor. Marque as partes que não entendeu. Tente fazer associações deste texto com outros que já leu.
Atenção: Às vezes, durante a aula, você pode ter a noção de que a matéria é fácil e que nunca esquecerá aquele conteúdo. Isso faz com que você não faça revisões periódicas da matéria. Cuidado! Se depois da aula você não rever aquele conteúdo, possivelmente no dia seguinte não lembrará quase nada. É assim que acontece o “branco”.
E é para combater o branco que você precisa exercer seu papel de estudante.
Você é estudante quando estuda em casa, revisa a aula e faz as tarefas. Estudar é individual e ativo.
Ao chegar em casa, tire um tempo para revisar o que foi explicado em sala de aula. Não é para estudar o caderno ou o livro inteiro. Estude apenas o que foi explicado naquele dia.
Importante: Revise a matéria antes de se passar uma noite de sono. Quem assiste à aula de manhã, estuda à tarde; quem assiste à aula à tarde, estuda à noite. Veja no exemplo:
Na quarta-feira tive aula de Literatura e Matemática. Durante a aula, prestei atenção às explicações dos professores e fiz algumas anotações no caderno. Ao chegar em casa, revisei as anotações, reli os capítulos explicados em sala de aula e fiz alguns exercícios. Isso tudo antes de ir dormir.
Resumindo: Na aula, você é aluno, e seu objetivo é entender aquilo que é explicado. Em casa, você é estudante, e seu objetivo é revisar aquilo que entendeu na aula. E quando for dormir, fique tranquilo e deixe que seu cérebro faça o resto do trabalho passando a informação para o córtex.
Por que é importante estudar antes de ir dormir?

Não quero prolongar este texto pois, a esta altura do campeonato você já deve ter matéria para estudar. Todavia, quero lhe explicar por que é importante que você estude antes de passar uma noite de sono.
Tudo o que aprendemos durante o dia é “gravado” no nosso cérebro durante o sono. Não dormirmos para descansar; dormimos para aprender! Façamos uma analogia:
Quando você está digitando um texto no Word, as palavras digitadas estão sendo salvas na memória RAM do seu computador. Se você fechar o documento sem salvá-lo, todo o texto será perdido. A memória RAM é limitada e provisória. Entretanto, se ao terminar de digitar seu texto, clicar em “salvar”, você enviará aquele arquivo para o HD (Hard Driver) do seu computador. A memória do HD é ampla e permanente. Tudo o que é salvo no HD (documentos, fotos, vídeos etc.) fica a sua disposição sempre que desejar.

Em nosso cérebro possuímos estruturas que, no que se refere à aprendizagem e memorização, funcionam de modo semelhante.

Quando você está na sala de aula, o professor está explicando a matéria e você está fazendo anotações, as informações estão sendo “salvas” em um local chamado sistema límbico. Assim como a memória RAM, tudo o que é gravado aí será apagado se não for salvo em uma memória ampla e permanente. Lembra aquela vez que deu “branco” na prova? O “branco” acontece porque a informação que estava no sistema límbico foi apagada. É como tentar encontrar algo que não existe mais. Para não dar branco, precisamos salvar as informações no córtex cerebral, mas, como fazemos isso?
O que no computador chamamos de HD, no cérebro chamamos de córtex. A diferença é que se no Word basta clicar em “salvar”, no nosso cérebro não é tão fácil assim. Para uma informação ser armazenada na memória de longo prazo (em nosso córtex) ela tem que ser repetida. E essa repetição deve ocorrer antes de você dormir, pois, é neste momento que acontece a “transferência” de informação da memória de curto prazo (sistema límbico) para a memória de longo prazo (córtex cerebral). Se você dorme mal e fica a noite toda no Whatsapp, quer dizer, em redes sociais, este processo não será realizado adequadamente.
Mas é só repetir? Não! É repetir ativamente. Isso significa leitura, papel e lápis na mão. Não é apenas para ler. É para ler e ESCREVER!
Como aprender mais estudando menos: Estude pouco, mas todo dia!

Imagine que cada degrau da escada acima é um dia de estudo. À medida que você for estudando e os dias forem passando, caminhará em direção ao topo da escada. Dependendo de qual série ou período você está, o topo pode ser a formatura do ensino médio, a aprovação no vestibular ou a colação de grau. Contudo, parar subir esta escada e alcançar seu objetivo, é necessário:
1. Assistir à aula com atenção
Esteja presente de corpo e mente em sala de aula. Evite conversas paralelas e distrações. Se quiser passar um recado para alguém, anote no canto do caderno e diga depois. Se alguém te chamar, faça aquele famoso sinal com as mãos de “depois você me fala”.
Novamente alerto: Se seu professor for muito bom, ele explicará a matéria de modo que aquele conteúdo pareça muito fácil. Tanto que você pensará que nem precisa prestar atenção nele. Ledo engano. Se seu professor está explicando a matéria e você está conversando com alguém, você não está fazendo duas coisas ao mesmo tempo. Na verdade, o seu cérebro está alternando rapidamente entre as duas atividades e enquanto faz isso, nem a aula nem a conversa está sendo adequadamente memorizada.
2. Estudar em casa depois da aula
Ao chegar da aula, revise a matéria que estudou naquele dia. Você pode até realizar outras atividades e dar um cochilinho, mas é importante que você revise (preferencialmente fazendo exercícios) tudo o que estudou na aula daquele dia antes de se passar uma noite de sono. Ao revisar a matéria, imagine que está fazendo uma cola e pergunte-se: “Se tivesse uma prova sobre esse conteúdo amanhã, o que eu colocaria na minha cola? Suas anotações serão essa cola, a qual é uma síntese do que você aprendeu na aula.
Nem vou me dar ao trabalho de te dizer para não levar essa cola para a prova, pois, se você fez tudo o que estou te orientando, você não precisará de levar nada, porque a cola já estará gravada no seu cérebro.
Obs: Se o professor não tiver passado exercícios para fazer em casa, procure por alguns na internet. Memorização é um processo ativo!
3. Dormir uma boa noite de sono
Conforme já expliquei, tudo o que aprendemos durante o dia é “gravado” no nosso cérebro durante o sono, por isso, uma boa noite de sono é muito importante. Limite o uso de videogames e Facebook rede sociais ao se aproximar da hora de dormir e tenha no mínimo de 6 a 8 horas de sono por noite.
Obs: Se você estuda de manhã e gosta de tirar uma sonequinha quando chega em casa, não deixe que esta soneca seja prolongada.
Concluindo

Espero que as orientações acima possam lhe ajudar a ser um aluno mais dedicado e um estudante mais motivado e disciplinado. Estudando de forma correta – pouco, mas todo dia – vai sobrar tempo de você se divertir muito mais. Daí, quando seus colegas de sala estiverem desesperados no dia anterior à prova, você estará sossegado porque estudou a matéria desde o início para aprender; não para tirar nota. (Quando isso acontecer, seja legal e mande este texto para seus colegas).
Se tiver alguma dúvida ou quiser outras orientações, estou à disposição. Entre em contato!
Nota 1: Faço referência e agradecimento in memoriam ao saudoso Prof. Pierluigi Piazzi (Prof. Pier), o qual tive o prazer de conhecer quando esteve em Ipatinga em 2012. Infelizmente Prof. Pier faleceu ano passado, mas seu valioso trabalho como pesquisador em neuropedagogia pode ser consultado nos links abaixo:

Livros publicados pelo Prof. Pier:
http://www.editoraaleph.com.br/site/nao-ficcao/educacao
Palestra/aula do professor:
https://www.youtube.com/watch?v=mJKQ7dzMaR0
Nota 2: Optou-se por escrever este texto de forma didática e informativa, de modo que fosse compreensível para todos. Por este motivo, jargões técnicos e aprofundamentos teóricos foram simplificados.