Se o aluno não aprende, é problema de atenção?

Há alguns dias, voltando do trabalho, uma mãe parou-me e disse-me que a professora havia solicitado que ela levasse o filho ao neurologista. Ela queria saber se eu achava que era importante fazer a consulta. A professora e a mãe acreditavam que a incapacidade da criança acompanhar a turma poderia estar de alguma forma ligada a algum déficit neurológico. “Suspeitavam” que pudesse ser um “déficit de atenção”. Como não atendo a criança e não podendo ter como fidedigno aquele relato casual, fiz uma recomendação padrão: que levasse ao médico clínico geral e que apresentasse a ele as queixas que te tivesse. Caberia a ele, caso visse a necessidade, encaminhar o caso para o especialista (seja neurologista, psicólogo, psiquiatra, pediatra etc.).

Após esta conversa, fiquei pensando como elas suspeitaram logo de um déficit de atenção e não de outros processos que estão diretamente envolvidos na aprendizagem. É compreensível que sejam leigas no assunto, mas para informar outras pessoas, resolvi escrever este post sobre processos psicológicos que influenciam a memorização de informações. Baseei-me nos tópicos apresentados por Dalgallarrondo (2008). A explicação aplica-se a qualquer pessoa que esteja aprendendo algo, seja na escola, na faculdade e/ou no trabalho.

FATORES PSICOLÓGICOS DO PROCESSO DE MEMORIZAÇÃO

1 Nível de Consciência

É importante que o aluno esteja desperto, descansado, alimentado e calmo. Assistir à aula com sono, cansado e com fome influencia diretamente na capacidade de aprendizado.

2 Atenção global e capacidade de manutenção da atenção

O aluno deve ser capaz de manter a atenção concentrada durante o tempo da aula (que geralmente é de 50 minutos). É claro que alguma distração pode ocorrer, mas ele deve ser capaz de retornar o foco para a matéria. Ao contrário da distraibilidade (alteração psicopatológica da atenção) a distração não é um sintoma psicopatológico.

3 Sensopercepção preservada

O aluno deve ser capaz de perceber e tomar consciência adequadamente dos estímulos visuais e auditivos produzidos pelo professor. Se o aluno não enxerga bem o quadro ou não ouve claramente a professora, ele não conseguirá entender corretamente a matéria.

4 Interesse relacionado ao conteúdo

O material de estudo deve apresentar-se de modo interessante ao aluno. Quanto mais motivado a aprender ele estiver, melhor será seu engajamento na tarefa.

5 Conhecimento anterior

É importante que o aluno saiba conectar conhecimentos anteriormente aprendidos com a informação que está aprendendo no momento. É mais fácil aprender algo que já é um pouco familiar do que algo totalmente novo.

6 Capacidade de compreensão do conteúdo

O conteúdo deve ser explicado e organizado de modo que o aluno consiga entender o que está sendo explicado. O nível do material e do vocabulário deve ser adequado para a idade e a série.

7 Organização temporal das repetições

Após a primeira aula expositiva, é importante que o aluno programe revisões para o conteúdo. Estas revisões devem ser harmônicas e ritmadas. Ex: No mesmo dia da aula, antes de dormir; 24h; 2 dias; 1 semana; 1 mês e 3 meses após a primeira aula.

Como demonstrado, diversos processos psicológicos interferem na memorização. A atenção é apenas um deles. Por este motivo, é importante observar em sala de aula e em casa, se todos esses processos estão acontecendo normalmente e em caso negativo, avaliar o comportamento como um todo; não apenas um único processo.

 

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

DALGALARRONDO, P. Psicopatologia e Semiologia dos Transtornos Mentais. 2ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2008.

 

 

 

 

 

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