Conto: Sobre a loucura dos normais

O texto abaixo é um conto baseado na obra “Holocausto Brasileiro” da jornalista Daniela Arbex. Foi escrito para mostrar à população leiga ou que atua fora da área de saúde, que no tempo dos manicômios, literalmente qualquer pessoa poderia ser internada e submetida a tratamentos indignos e desumanos. Usando ironia e exemplos reais, este conto objetiva causar repulsa e horror, para que assim as pessoas percebam o porquê de associações e entidades científicas defenderem pautas antimanicomiais. Mais do que a má conduta psicológica e médica. Tememos a humilhação, o comércio da loucura e o genocídio.

O conto foi inspirado nas histórias do Hospital Colônia de Barbacena. Essas histórias foram relatadas por Daniela em seu livro supracitado. Outras informações referentes à existência do Colônia podem ser encontradas no documentário “Em nome da razão” de Hélvecio Rátton, e no documentário “Holocausto Brasileiro“.

Antes de partirmos para a ficção inspirada na realidade passada, ressalto que apoiar pautas antimanicomiais não significa ser contra a internação psiquiátrica. Hoje em dia, graças ao avanço das ciências e das profissões, aos movimentos sociais e a leis como a Lei. 10.216/2001 (que dispõe sobre a proteção e os direitos das pessoas portadoras de transtornos mentais e redireciona o modelo assistencial em saúde mental) ninguém é internado sem um plano terapêutico que garanta seu bem-estar, sua proteção, sua dignidade e principalmente, seus direitos. Assim como acontece em outras áreas da saúde, o médico só recomenda a internação quando ela é absolutamente necessária para dar continuidade ao tratamento. E uma vez internado, o paciente é acompanhado por uma equipe interdisciplinar (psicólogo, psiquiatra, neurologista, terapeuta ocupacional etc.) e também pela família, que é parte essencial de qualquer tratamento. A internação dura por um tempo limitado. E após seu acontecimento, o paciente pode continuar o tratamento de modo ambulatorial.

O conto abaixo expressa um passado de ignorância que nada tem a ver com as práticas hospitalares atuais. Entretanto, deve ser lido para que reconheçamos a pontuais situações aviltantes dos diretos do paciente. Também para que percebamos que nossos preconceitos possuem uma raiz histórica e cultural. E a melhor maneira de evitarmos que este passado de trevas retorne é conhecendo-o ao menor sinal de sua sombra.

Centro de Saúde Holocausto: um conto sobre um passado inglório da saúde mental brasileira

Este é um comunicado publicitário do Centro de Saúde Holocausto: lugar de excelência em manter pessoas indesejadas fora da sociedade. Nosso centro foi construído para comportar até 200 pacientes, mas atualmente estamos com 5.000. Entretanto, não se preocupe, pois como em média 16 pacientes morrem por dia, sempre temos vagas. Abaixo apresentamos algumas patologias sociais que atendemos. O encaminhamento pode ser feito por médico, delegado, político, pai, marido ou coroné da região. Se você ou algum conhecido apresenta algumas destas doenças, nos procure:

Critérios para a admissão de homens:

  • Pobres
  • Órfãos pobres
  • Homossexuais
  • Brigões
  • Com vícios
  • Inimigos políticos

Critérios para admissão de mulheres:

  • Pobres
  • Órfãs pobres
  • Homossexuais
  • Que perderam a virgindade antes do casamento
  • Problemáticas para a família
  • Tristes
  • Que não aceitam a amante do marido

Obs: Temos cotas para brancos.

Se você se encaixa em algum destes critérios, mas não possui algum transtorno mental diagnosticado, não tem problema, 70% dos nossos pacientes também não tem.

Mensagem de boas-vindas ao paciente/prisioneiro

Seja bem-vindo(a) ao Centro de Saúde Holocausto!

Se você se encaixou em qualquer das doenças acima descritas e foi encaminhado pelas pessoas acima citadas, você foi admitido para tratamento/encarceramento. Simples assim. Ao chegar, tiraremos sua roupa e lhe daremos um belo uniforme azul (chamado carinhosamente de “azulão”). Se for homem, também cortaremos os seus cabelos (última moda em campos de concentração). Mesmo sem sabê-lo, substituiremos seu nome, apelidando-o ou chamando-o de “Ignorado de tal”. Quanto ao seu alojamento, se for pobre, ficará na ala dos indigentes.

No alojamento, devido à superlotação, retiramos as camas, então todos os pacientes/prisioneiros dormem no chão coberto por capim. As noites são gélidas, por isso recomendamos que você durma próximo aos outros pacientes/prisioneiros, assim, o calor dos corpos deles pode diminuir um pouco o frio. Faça chuva ou faça sol, você será acordado às 5h, pois temos que entregar o alojamento livre para que a equipe da manhã chegue às 7h e possa limpar as fezes (não tem banheiro no alojamento, então as pessoas defecam lá mesmo) e colocar o capim (o seu “colchão”) para secar. Você será encaminhado para o pátio ao ar livre. De tanto frio que faz, a sensação térmica é negativa, então é melhor ficar próximo aos seus colegas – ainda mais se for o dia de lavar o seu único uniforme e você, portanto, estiver nu. Às 8h será servido o café da manhã (pão com manteiga e café). Neste momento, é melhor você ir para a fila pois quem fica de fora não é servido. Às 12h é o almoço (arroz cru, feijão sem sal, macarrão branco como cola de colar balão e de sobremesa banana pobre). Às 17h é o jantar (macarrão novamente). Entre o café da manhã e o almoço, e entre o almoço e o jantar, você não comerá nem beberá nada, então sua dieta fitness não poderá ser cumprida enquanto estiver conosco. Entretanto, alguns pacientes bebem a água do esgoto e adotam uma dieta insetívora para não ficar com fome neste intervalo (há uma grade variedade de baratas e outros insetos. Consulte seu nutricionista antes de se internar). Você só retornará ao alojamento ao anoitecer. Durante o dia você será dopado, forçado a fazer trabalhos pesados, castigado e/ou deixado a esmo no pátio (tudo isso não necessariamente nesta ordem)

Caso seja mulher e esteja grávida, uma dica muito útil que algumas pacientes/prisioneiras te darão, será passar fezes em sua barriga. Ouça a dica, pois isso reduzirá a probabilidade de algum funcionário te violentar ou punir com o eletrochoque. Se ou quando o bebe nascer, e se for saudável, como você não tem condições de cuidar dele, mediaremos a adoção com algum casal que se interessar.

Falando em eletrochoque, independentemente de seu diagnóstico (ou da ausência dele), você passará por algumas sessões, pois aqui usamos o eletrochoque como medida terapêutica e disciplinar. Os choques variam de 110 a 120 volts e são ministrados por experientes funcionárias sem formação médica. Por favor, não confunda eletrochoque com eletroconvulsoterapia (ECT). A ECT é uma prática cientificamente validada para tratamentos psiquiátricos. Entretanto, como trabalhamos apenas como uma visão higienista e ideológica, não nos apegamos a tratamentos científicos.

Além do eletrochoque, também usamos laborterapia. O que no nosso caso consiste basicamente em trabalhos forçados e braçais como capinar, abrir estradas, derreter ou enterrar corpos de ex-pacientes/prisioneiros no cemitério.  Evidentemente que você não será pago ou reembolsado por nenhum serviço que prestar.

O tempo de internação é indeterminado. Geralmente os pacientes ficam conosco até morrer. Há uma possibilidade que você saia algum dia, mas até lá, estará tão bem condicionado à vida cativa, que os privilégios da liberdade (acender e apagar a luz do quarto, tomar um banho quente, escolher sua roupa, escolher o que comer etc.) serão estranhos para você. Talvez o melhor então, seja permanecer conosco até morrer e poupar a sociedade dos seus questionamentos e de suas condutas inapropriadas.

Obs: Em caso de falecimento, venderemos seu corpo para alguma faculdade de medicina. Em caso de saturamento do mercado de corpos, derreteremos seu corpo para vender os ossos. E faremos sem o seu consentimento ou da sua família.

Seja bem-vindo(a) ao nosso centro de saúde! Curaremos você de sua dignidade e sanidade enquanto deixamos a sociedade machista, homofóbica, segregadora e hipócrita livre de sua presença.

Dia 18 de maio é o “Dia Nacional da Luta Antimanicomial”. A data faz referência ao Congresso de Trabalhadores de Serviços de Saúde Mental, realizado em 1987 na cidade de Bauru/SP. O Congresso, cujo lema foi “Por uma sociedade sem manicômios” , deu visibilidade ao Movimento da Luta Antimanicomial e inaugurou uma nova trajetória da da Reforma Psiquiátrica Brasileira. Nos dias atuais, diversas ações são realizadas nesta data por associações e entidades científicas.

 

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

ARBEX, D. Holocausto Brasileiro. 1 ed. São Paulo: Geração Editoral, 2013.

 

 

FOTOS

Fotos do meu arquivo pessoal de quando estive no antigo Hospital Colônia, atualmente transformado no Museu da Loucura, e fotos do fotógrafo Luiz Alfredo quando visitou o hospital em 1961.

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Um comentário sobre “Conto: Sobre a loucura dos normais

  1. Avatar de Batman Dark Knight Batman Dark Knight 30 ago 2019 / 23:04

    Quando vi a foto do capim eu disse: meu deus….

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