Sempre gostei de ler contos. Comecei com Rubem Alves, Luis Fernando Veríssimo e atualmente estou lendo “Os cem melhores contos brasileiros do século” (Italo Marconi, Editora Objetiva). Influenciado por esta leitura resolvi contar em forma de conto o resultado de uma discussão sobre a evasão escolar de crianças e adolescentes. Ressalto que, como todo conto, este também possui característica ficcional e pretende apenas provocar reflexões sobre o tema

O Trinca-ferro pedagógico
O discurso de formatura foi bonito. Depois de cinco anos, finalmente José Sanches formava-se com mérito e honras no curso de Direito. De agora em diante seria chamado “Dr. Sanches”.
Em seu discurso, elogiou os mestres pela paciência, fez piada com os colegas de classe e agradeceu à família por todo apoio recebido. Agradeceu enfaticamente e com uma emoção notória ao Trinca-ferro do pai. Esta última parte despertou-me curiosidade. Questionando meu amigo, descobri a história que fez com que o pássaro ganhasse a eterna gratidão do mais novo bacharel em Direito.
Com 11 anos de idade, José Sanches, à época chamado Zézim, decidiu terminantemente sair da escola. Não gostava dos professores. Os colegas mangavam do seu jeito caipira e ele não entendia o que aqueles números e palavras trariam para sua vida. Sobre a vida, Zézim já sabia o que era bom: jogar bola, andar de bicicleta, pescar e jogar vídeo-game. Para ter acesso a estas atividades, até submetia-se a assistir a mãe nos afazeres de casa e o pai na lida do campo.
E assim Zézim saiu da escola. Os pais não agradaram da ideia. Mandaram-no ir à escola algumas vezes, mas o teimoso não se movia. Com o tempo, esqueceram do assunto e até acostumaram-se a ver o filho em casa ou brincando pela rua.
A evasão de Zézim logo chegou ao conhecimento do governo, que rapidamente notificou os pais para que a criança retornasse à escola imediatamente. A carta de notificação foi entregue, mas o menino não retornou à escola. Diante da falta de resposta à notificação e da continuidade das faltas, o governo resolveu enviar à casa da família um de seus agentes. Ele iria analisar a situação e comunicar aos pais de Zézim as possíveis penalidades que seriam aplicadas caso a situação permanecesse.
O agente chegou ao local, analisou a situação e conversou com os pais:
– Seu João, o senhor precisa voltar com o menino para a escola.
– Mas ele num qué i, uai!
– Se ele não voltar pra escola, podemos cancelar seu CPF.
– Num uso.
– Como assim? O senhor não vai poder abrir conta no banco!
– Não tenho dinheiro para colocar lá mesmo!
– O senhor não vai poder pegar empréstimo no banco!
– Ês num empresta mesmo!
– O senhor vai pagar uma multa.
– Não tenho dinheiro.
– O senhor não se importa que seu filho fique sem estudar?
– Importo, uai! Mas ele num qué i.
O agente já perplexo ensaiava para sair da casa quando ouviu um canto bonito vindo do quintal.
– Que canto bonito! O que é?
– É meu Trinca-ferro cantadô.
– E o senhor tem autorização para ter esse pássaro engaiolado?
Seu João mais do que depressa se levantou e deu a sentença:
– Zézim, larga essa bola que ô cê volta pra escola é hoje!
Este conto demonstra uma cena absurda e exagerada criticando a passividade estatal e familiar. Foi escrito há algum tempo quando acompanhei alguns casos de evasão escolar. “Zézim” não é uma pessoa em específico, mas representa diversos casos. O que chega na clínica é a falta de atuação dos pais, mas é importante enfatizar que a família não é a única responsável pela educação das crianças, pois isso também é responsabilidade da “comunidade, da sociedade em geral e do poder público”, conforme estabelecido pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Deste modo, não se deve julgar ou criticar a família, mas sim entender seus valores para posteriormente modificar comportamentos que impeçam o adequado desenvolvimento das crianças.