Seu marido ou sua esposa sofre de surdez marital? Deixa coisas jogadas pela casa? Pois é… às vezes, não são os grandes problemas que abalam os relacionamentos, mas sim as pequenas coisas irritantes do dia a dia.
A escritora Amy Sutherland estava passando por esta situação desagradável em seu casamento, e tudo mudou quando pesquisando para escrever um livro sobre uma escola para treinadores de animais exóticos, ficou maravilhada com as técnicas de modificação de comportamento e resolveu aplicá-las no próprio marido, ficando muito feliz com os resultados que obteve.
O texto abaixo é uma tradução não oficial que fiz do texto publicado por ela no New York Times em junho de 2006. Fiquei sabendo deste artigo através do blog do Prof. João Cláudio Todorov. O propósito é mostrar para os casais como técnicas relativamente simples podem ajudá-los a construir interações mais benéficas com seus parceiros ou parceiras. É evidente que essas técnicas produzem melhores resultados quando supervisionadas por um psicólogo. Se tiver alguma dúvida ou precisar de ajuda, entre em contato.
Boa leitura!
O QUE SHAMU* ME ENSINOU SOBRE UM CASAMENTO FELIZ
Por Amy Sutherland
*Shamu é o nome da orca-símbolo do parque de diversões SeaWorld, nos EUA. Trata-se de um nome-padrão para todas as orcas em idade de se apresentarem (Fonte: Wikipédia).
Enquanto eu lavo os pratos na pia da cozinha, meu marido anda atrás de mim irritado. “Você viu minhas chaves?” ele pergunta. Suspira alto e pisa forte no quarto. Junto vai nosso cão, Dixie, ansioso perto de seu humano chato favorito. No passado, eu teria ido bem atrás de Dixie. Teria fechado a torneira e me juntado à caça, tentando acalmar meu marido dizendo: “Não se preocupe, elas vão aparecer”. Mas isso só fazia ele ficar com mais raiva. E um simples caso de chaves perdidas logo se tornaria um drama cheio de angústias estrelado por nós dois e nosso pobre cachorro.
Agora, eu me concentro no prato molhado em minhas mãos. Não me viro. Não digo uma palavra. Estou usando uma técnica que aprendi com um treinador de golfinhos.
Amo meu marido. Ele é inteligente, aventureiro e faz uma interpretação histérica de um sotaque do norte de Vermont que ainda me mata de rir mesmo após 12 anos de casamento. Mas ele também tende a ser esquecido e muitas vezes atrasado. Ele fica em torno de mim na cozinha perguntando se eu li esta ou aquela matéria no “The New Yorker” enquanto estou tentando me concentrar nas panelas no fogão. Ele deixa a roupa jogada por onde anda. Sofre de surtos graves de surdez marital, mas nunca deixa de me ouvir quando murmuro para mim mesma do outro lado da casa. “O que você disse?” ele grita.
Estes pequenos aborrecimentos não são o tipo de coisa que por si só levam à separação e ao divórcio, mas somados, começaram a diminuir meu amor por Scott. Eu queria – necessitava – empurrá-lo um pouco mais perto da perfeição, fazer dele um companheiro que me irritasse um pouco menos, que não me deixasse esperando em restaurantes. Um companheiro que fosse mais fácil de amar.
Assim, como muitas esposas antes de mim, ignorei a existência de livros que poderiam ter me ajudado a melhorar meu marido. Não ter acesso a este conhecimento só fez o seu comportamento pior: ele dirigia rápido ao invés de devagar; se barbeava menos vezes, ao invés de mais; e deixava a roupa que usava para andar de bicicleta fedida e jogada no chão do quarto por bastante tempo.
Fomos a uma terapeuta. Ela não entendeu o que estávamos fazendo lá e nos elogiou repetidamente sobre a forma como nos comunicamos. Eu desisti. Achei que ela estava certa – nosso casamento era melhor do que a maioria – e resignei-me a trechos de ressentimento e sarcasmo.
Então, algo mágico aconteceu. Para um livro que eu estava escrevendo sobre uma escola para treinadores de animais exóticos, comecei a me deslocar de Maine para a Califórnia, onde passava dias assistindo aos alunos fazerem o que parecia impossível: ensinar hienas a fazer piruetas, pumas a oferecer as patas para cortar as unhas e macacos a andar de skate. Ouvi, extasiada, os treinadores explicarem como ensinaram golfinhos a pular e elefantes a pintar. Eventualmente, me ocorreu que as mesmas técnicas poderiam funcionar na espécie mais teimosa, mas também adorável: o marido americano.
A principal lição que aprendi com os treinadores de animais exóticos, é que eu deveria recompensar o comportamento que gosto e ignorar o comportamento que não gosto. Afinal de contas, você não faz um leão-marinho equilibrar uma bola na ponta do nariz irritando-o. O mesmo vale para o marido americano.
De volta a Maine, comecei agradecendo Scott se ele jogasse uma camisa suja dentro do cesto. Se jogasse duas, eu o beijava. Enquanto isso, passava por cima de um chão de roupas sujas sem dizer uma palavra rude, apesar de às vezes chutar as roupas para debaixo da cama. Contudo, como ele gostava da minha atenção, as pilhas de roupas sujas pelo chão se tornaram menores.
Eu estava usando o que treinadores chamam de “aproximações”, premiando os pequenos passos que levam ao aprendizado de um comportamento totalmente novo. Você não pode esperar que um babuíno dê piruetas no ar sob seu comando em uma única sessão, assim como você não pode esperar que o marido americano pegue regularmente suas meias sujas do chão elogiando-o apenas uma vez por ele ter pego uma única meia. Com o babuíno, primeiro você recompensa um salto, em seguida, um salto maior, depois, um salto ainda maior. Com Scott, o marido, comecei a recompensá-lo por cada pequeno comportamento toda vez que ele o fazia: se dirigiu apenas um quilômetro por hora mais devagar, se jogou um par de shorts dentro do cesto ou chegou na hora marcada.
Também comecei a analisar o meu marido da mesma forma como um treinador analisa um animal exótico. Treinadores experientes aprendem tudo sobre a espécie do animal, da anatomia até a estrutura social. Fazem isso para entender como ele pensa, o que gosta e não gosta, o que é fácil para ele e o que não funciona. Por exemplo, um elefante é um animal que vive em manadas, por isso responde à hierarquia. Ele não pode saltar, mas pode se equilibrar. E é vegetariano.
O exótico animal conhecido como Scott é um macho alfa solitário. Assim, hierarquia é mais importante do que pertencer a um grupo. Possui o equilíbrio de um ginasta, mas é lento, especialmente quando está se vestindo. Esquiar é um dom natural, mas pontualidade não. Ele é onívoro. E come enquanto dirigi.
Quando comecei a pensar desta maneira, não consegui parar. Na escola na Califórnia, comecei a rabiscar notas sobre como andar em um emu (ave) e como fazer um lobo aceitar você com um membro do bando. Eu pensava: “Mal posso esperar para tentar isso no Scott”.
Em uma ida ao campo com os estudantes da escola, ouvi um treinador descrever como ele ensinou um grou-de-crista africano a parar de pousar em sua cabeça e em seus ombros. Ele fez isso treinando a ave – que possui pernas longas – a pousar em um tapete colocado no chão. Isso, ele explicou, é chamado “comportamento incompatível”, um conceito simples, mas brilhante.
Ao invés de ensinar os grous a parar de pousar sobre ele, o treinador ensinou um outro comportamento que faria do comportamento indesejado impossível de ser realizado, afinal, os pássaros não poderiam pousar no tapete e em sua cabeça ao mesmo tempo.
Em casa, pensei em comportamentos incompatíveis para impedir que Scott me atrapalha-se enquanto eu cozinhava. Para atraí-lo para longe do fogão, pedia que ele cortasse salsas ou ralasse o queixo na outra extremidade da ilha da cozinha. Ou então, colocava um prato de batatas fritas do outro lado da sala. Em pouco tempo eu tinha conseguido: Scott não ficava pairando em volta de mim enquanto eu cozinhava.
Fui junto com os estudantes para o “SeaWorld San Diego”, onde um treinador de golfinhos me mostrou uma técnica conhecida como “least reinforcing scenario” (L. R. S.). Quando um golfinho faz algo que o treinador não deseja que ele faça, o treinador não faz nada. Ele fica parado por alguns segundos sem dar atenção para o golfinho e só depois retorna para o trabalho. A ideia é que todo comportamento é seguido por uma consequência, seja boa ou ruim. Se o comportamento não provoca nenhuma consequência, tipicamente ele é extinto.
Escrevi no meu caderno de anotações: “Tentar no Scott”.
Foi somente uma questão de tempo antes dele ficar furioso novamente procurando por suas chaves pela casa. Neste momento, eu não dizia nada e continuava com o que estava fazendo. Tive que ter bastante disciplina para manter a calma, mas os resultados vieram de forma rápida e eficaz.
Agora, lá vem ele outra vez, batendo a porta do armário, resmungando em meio a papéis e fazendo barulho no andar de cima. Da pia, permaneço calma. Então, de repente tudo fica em silêncio. Pouco depois, ele aparece na cozinha com as chaves na mão e diz calmamente: “Encontrei”.
Sem me virar, digo: “Que legal! Te vejo mais tarde”.
Depois de dois anos de treinamento para animais exóticos, meu casamento está mais tranquilo e meu marido mais fácil de amar. Eu costumava levar suas falhas para o lado pessoal. A roupa suja no chão era uma afronta. Um símbolo do quanto ele não se importava comigo. Mas pensar no meu marido como uma espécie exótica me proporcionou o distanciamento necessário para considerar nossas diferenças de modo mais objetivo.
Adotei o mote do treinador: “Nunca a culpa é do animal”. Quando meu treinamento parecia ter falhado, eu não culpava o Scott. Ao invés disso, pensava novas estratégias, novos comportamentos incompatíveis e usava pequenas aproximações. Eu analisei meu próprio comportamento considerando como minhas ações podiam inadvertidamente influenciar as dele. Também aceitei que alguns comportamentos são muito difíceis de se treinar.
PROFISSIONAIS dizem que alguns animais entendem o treinamento tão bem que eventualmente o utilizam de volta no treinador. Meu animal fez o mesmo. Quando as técnicas treinadas funcionaram tão bem, eu não resisti e contei para o meu marido o que estava fazendo. Ele não se ofendeu. Apenas achou engraçado. Expliquei as técnicas e a terminologia e ele se maravilhou mais do que eu pude perceber.
No último outono, já na meia-idade, precisei colocar aparelhos. Não era apenas humilhante, mas também doloroso. Por semanas minha gengiva, dentes, mandíbulas e seios da face latejavam. Eu reclamava alto e sem parar. Scott garantiu que eu me acostumaria em ter todo aquele metal na boca. Mas não me acostumei.
Em uma manhã, comecei a reclamar novamente sobre o quão desconfortável eu estava. Scott apenas me olhou indiferente. Ele não disse nenhuma palavra. Nem mesmo acenou com a cabeça.
Rapidamente parei de reclamar e me retirei. Então, percebi o que estava acontecendo, voltei e perguntei a ele: “Você está usando L. R. S em mim?” Silêncio. “Você está? Não está?”. Ele sorriu, mas o seu treinamento já tinha surtido efeito. Ele tinha começado a me treinar: a esposa americana.
BIBLIOGRAFIA
SUTHERLAND, A. What Shamu Taught Me About a Happy Marrige. Publicado no “New York Times” de 25 de junho de 2006. Disponível em: <http://www.nytimes.com/2006/06/25/fashion/25love.html?pagewanted=1&_r=2&ei=5087&en=3edcee0d461222fa&ex=1169438400&excamp=mkt_shamu>. Acesso em: 04, mar. 2015.